Laís Galdino ● 07/07/26 ● 3 min leitura
Pesquisa realizada no Nordeste revela como a pandemia agravou complicações na gestação e expôs desigualdades no cuidado à saúde materna
Em 2020, o mundo foi surpreendido pela Covid-19. A declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe impactos para toda a população, inclusive para mulheres grávidas e no pós-parto, que passaram a exigir cuidados ainda mais específicos durante esse período.
Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontaram aumento da mortalidade materna já no primeiro ano da pandemia. No Brasil, a situação se tornou ainda mais preocupante devido às desigualdades sociais e raciais. Mulheres negras, por exemplo, apresentaram maior risco de morte materna quando comparadas às mulheres brancas.
Durante a gestação e o pós-parto, o organismo feminino passa por importantes alterações cardiovasculares, respiratórias, hematológicas e imunológicas. Essas mudanças podem aumentar a vulnerabilidade a infecções graves, como a Covid-19, favorecendo o surgimento de complicações.
Nesse contexto, a Covid-19 tornou-se uma das principais causas de morte materna no país, superando outras complicações obstétricas já conhecidas. O cenário reforçou a mortalidade materna como um importante desafio de saúde pública.
Um estudo realizado em cinco hospitais terciários do Nordeste brasileiro analisou casos de mulheres internadas entre abril de 2020 e junho de 2021 por complicações relacionadas à Covid-19 durante a gravidez e o pós-parto. Os resultados chamam atenção:
- 64 mulheres (14%) apresentaram complicações graves;
- 42 (9%) vivenciaram situação de near miss materno — quando a mulher quase morre devido a complicações severas;
- 22 mulheres (5%) morreram.
Além dos números, o perfil das pacientes evidencia desigualdades sociais importantes.
A maioria das mulheres tinha cerca de 30 anos, era parda ou negra, estava grávida no momento da internação e foi submetida à cesariana. Muitas também não haviam concluído o ensino superior.
Entre as complicações mais frequentes estavam a síndrome respiratória aguda grave, responsável por comprometer os pulmões e dificultar a respiração, além de hipertensão gestacional, pneumonia, infecção urinária, lesão renal e hemorragia pós-parto. Nos casos mais críticos, também foram registrados quadros de sepse, alterações neurológicas e disfunções hepáticas.
Diante da gravidade dos casos, muitas pacientes precisaram de cuidados intensivos, incluindo internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ventilação mecânica e uso de medicamentos como antibióticos e corticoides.
Os achados reforçam que a Covid-19 pode provocar consequências severas durante a gestação e o pós-parto, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais.
O estudo também evidencia a necessidade de fortalecer o acesso aos serviços de saúde, ampliar o acompanhamento pré-natal e garantir assistência materna mais segura e equitativa para todas as mulheres.
Sobre a pesquisa
O texto foi elaborado por participantes do Projeto AMMISC, em iniciativa voltada à divulgação científica e à aproximação entre pesquisa acadêmica e sociedade. O conteúdo artigo científico desenvolvido por pesquisadores vinculados ao Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira e participantes do Projeto AMMISC, incluindo a autora principal do estudo, Anna Catharina M. C. Florêncio, e a pesquisadora Melania Maria Ramos de Amorim, coordenadora do projeto. O estudo foi publicado e está disponível na revista Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine.
Referência
Cunha, A. C. M. C., Katz, L., Amorim, A. F. C., Coutinho, I. C., Souza, A. S., Katz, S., Souza, G., Souza, G., Farias, L., Lemos, R., Mello, M. Z., Neves, L., Albuquerque, M., Feitosa, F. E., Paiva, J., Lima, C., Lima, M., Amorim, M. M., & Northeastern Brazilian Study Group on COVID-19 and Pregnancy (N-COVIP). (2023). Clinical, epidemiological and laboratory characteristics of cases of Covid-19-related maternal near miss and death at referral units in northeastern Brazil: A cohort study. The Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine, 36(2), 2260056. https://doi.org/10.1080/14767058.2023.2260056
Link para o estudo completo